sábado, 29 de junho de 2013

Do garoto que queria voar.

    De idade, tinha apenas cinco. Mas as marquinhas de sofrimento que a vida lhe causava, isso nem dava pra contar. Era um garotinho gracioso, gostava de fazer desenhos, cantar, e fingir que era um super-herói. Conversava muito consigo mesmo.  
     O pai, após assumir a sua paternidade, resolvera se casar com a antiga namorada, e eles detestavam receber o menino. A mãe, após perceber que não foi possível conquistar o rapaz através da gravidez, resolveu abandoná-lo na casa de sua avó. Assim, ele passou a viver com a avó que, já um tanto cansada da vida, vivia reclamando que nunca teria paz, por ter que cuidar do “menino rejeitado”.
     Toda vez que ele conseguia, visitava a casa do papai, ou da mamãe, mas se sentia muito triste, pois percebia que incomodava, era um problema. Eles não o queriam ali. Não o queriam perto deles. Mas ele não sabia explicar o porquê.
     Depois de muito pensar, resolveu que a culpa era dele. Devia ter feito algo errado. Começou a desenhar, e desenhar. Como iria recuperar o amor das pessoas que eram suas donas? Um dia, fez um desenho lindo, era um passarinho. Desenhou a gaiola e entendeu que pássaro na gaiola não pode ser feliz.
     “Já sei! Eles se sentem presos. Sou criança, dou muito trabalho. Eu preciso liberta-los dessa gaiola. Preciso voar. Se eu voar, eles irão perceber que eu posso me cuidar sozinho, e voltarão a me amar”.
     Quando uma ideia nova chega e invade a cabecinha de uma criança de cinco anos, não é de se esperar que ela desista tão facilmente. Começou a analisar os pombos que viviam invadindo o seu quintal. Precisava de penas, e muitas, pois ele era maior que aquelas pombinhas. Será que dava pra fazer uma asa com lençol? Fez um desenho no seu lençol, a avó entrou no quarto, um tanto desconfiada, ele deitou em cima, fingiu que dormia. Quando a avó saiu, ele correu a cortar o lençol, na forma de duas asas. Amarrou em seus bracinhos, com muita dificuldade.
     “Eu vou conseguir”, pensava o garoto, “agora eu tenho asas”. Foi até a janela do prédio, morava no oitavo andar, subiu bem na beira da janela, respirou fundo. “Eu sou um super-herói, eu sou um super-herói”. Fechou os olhos. Abriu os braços. A avó apareceu na porta do quarto. Gritou: “Menino, o que você pensa que está fazendo?” Ele abriu um sorriso largo, ainda de olhos fechados, olhou pra ela e disse:
     “Não se preocupe, vovó, eu sou um pássaro. Só quero voar. Assim, vocês recuperarão a liberdade e vão começar a gostar de mim.” Antes que a vovó conseguisse pensar, antes que ela conseguisse alcançá-lo, ele gritou: “eu só quero voar, vovó”.
     Abriu os bracinhos.
     Voou.
Cristiane Figueiredo