Hoje quando acordei, percebi que o dia estava nublado e eu detesto quando os dias amanhecem assim. Ou faça um frio de precisar de cinco cobertas, ou abra um sol feliz, pelo amor de Deus! Realmente detesto quando o dia amanhece tão indeciso, talvez porque eu também sou indecisa e pelo menos a natureza deveria ser mais firme, decidida, imutável.
Ainda estou totalmente obcecada pela série e pelo livro Normal People. Apesar de não ser de concordância geral, assisti à série e depois li o livro, pois gosto da experiência de acompanhar duas mídias de uma mesma história, comparar, ver aproximações e distanciamentos, hábito que eu desenvolvi na disciplina de Literatura Alemã e Cinema na graduação.
Na história, que ganhou cores melhores na série do que no livro, por mais estranho que pareça para os leitores, Marianne Sheridan se encontra com Connel Waldron. Ambos estudam no ensino médio, na cidade de Carricklea, na Irlanda. Enquanto Connel é um dos garotos populares e é de um grupo de amigos daqueles que costumamos ver em histórias de adolescentes, que fazem bullying, tratam mal as garotas e não estão muito preocupados com futuro, Marianne é uma menina extremamente inteligente que não tem amigos na escola. Esse é um ponto de dissonância entre os dois que fará muita diferença. Outro ponto importante para compreender este casal é a diferença econômica e familiar entre os dois. Marianne é de uma família rica, mora com a mãe e o irmão mais velho. Connel é de uma família pobre, mora apenas com a mãe, que é faxineira contratada na casa de Marianne. Ambos moram sem o pai, porém enquanto Marianne perdeu o pai, que era abusivo e batia na mãe, Connel nunca conheceu o pai e nem tem esse interesse.
Isso não tem grande importância na história, o que faz mais diferença é a discrepância financeira entre as famílias, principalmente ao longo do tempo.
Os dois estabelecem uma amizade quando Connel vai buscar a mãe no trabalho e, um dia, Marianne fala que gosta dele. Ele vai embora e, em um segundo contato, ele pergunta se é como amiga e ela diz que não. Ele então diz que seria complicado na escola e ela diz que ninguém precisa saber. Então eles se beijam e começam um romance secreto, no qual Marianne tem as suas primeiras vezes. Assim como nós já fomos adolescentes e fizemos escolhas boas e ruins, vemos o relacionamento deles ir se tornando um pouco tóxico na medida em que Connel não a assume na frente das pessoas e a evita na escola, convidando uma menina popular para o baile. Marianne aceita muita coisa até dar um basta na situação e sair da escola após a situação do baile. Apesar disso, não conseguimos odiar os dois. Vemos um amor sincero nascendo nos dois corações e pessoas que não conseguem se comunicar bem.
Connel escolhe cursar Letras na mesma faculdade em que Marianne vai estudar História e Política, eles se reencontram e a história gira em torno dos encontros dos dois, faltas de comunicação e, o mais importante, como o amor entre os dois cresce, resiste e os ajuda, apesar de também causar tantos traumas.
Enfim, fiquei um pouco obcecada com essa história por alguns motivos.
Em um primeiro ponto, eu me incomodo muito com a personalidade do Connel, como ele abre mão de coisas importantes pra ele e faz escolhas erradas por um desejo de se encaixar. Talvez porque eu tenha cometido erros demais na minha juventude por essa vontade de me diluir entre os outros.
Também me incomodo demais com a Marianne e o quanto se abuso ela suporta por achar que não é digna de amor. Talvez porque eu já estive nesse lugar de aceitar o mínimo por não achar que eu merecia mais.
No fim das contas, Normal People me faz tocar dores e traumas que eu achava que já tinha superado.
Mas a real reflexão que eu queria fazer hoje é sobre escolhas. Há uma reflexão feita na série sobre quem eles seriam se nunca tivessem se relacionado, se ele tivesse escolhido uma faculdade diferente, se nunca tivessem se reencontrado. E é inevitável pensar quem eu seria se tivesse feito outras escolhas, se tivesse me comunicado melhor. Se não tivesse demorado 5 anos pra sair de um relacionamento abusivo, se não tivesse me envolvido com tantas pessoas que não queriam meu bem. Se tivesse levado os estudos mais a sério, se tivesse escolhido outro curso, se tivesse feito uma tatuagem. E quem eu serei daqui a 5 anos, com as escolhas que faço hoje? Sartre tinha razão quando disse que não há escolha certa ou errada, há apenas o "sustentar" a decisão tomada? E o mais importante, estou mesmo tomando essa decisão, ou nunca foi mesmo uma questão de escolhas quando claramente não havia outra opção? Como aceitar uma decisão que você (não) escolheu e seguir em frente?